VFXRio Live: Presença Ativa

O herói na nossa história parte em uma jornada de autodescoberta atravessando várias fases ate conhecer a si mesmo e chegar no VFXRio. Inspirado em Moebius e Joseph Campbell, Rodrigo Hurtado founder do estúdio XCAVE e Matteo Moriconi Diretor do VFXRio criaram um vídeo original com a tecnologia Unreal Engine. O Filme apresenta a soundtrack de Marcelo Baldin da Wolfgang.

MANIFESTO: PRESENÇA ATIVA

Se pararmos um momento nossas vidas ocupadas, repletas de telas e vozes incorpóreas que nos lembram de compromissos e nos instruem a respirar, talvez perguntemos: qual é o propósito de toda essa tecnologia? Poderíamos argumentar que a tecnologia é a resposta para e o resultado de uma busca pela solução de nossos problemas mais elementares. Quando os seres humanos iluminaram, pela primeira vez, as noites mais escuras, dominando o fogo, quando transformaram pedras em pontas de lança, eles estavam pensando em suas necessidades básicas, resolvendo problemas que desafiavam sua sobrevivência. Porque, no início, tudo era uma questão de sobrevivência, e, enquanto vagavam pela natureza selvagem, caçando e colhendo, os primeiros seres humanos não viam a si mesmos como muito diferentes ou separados do mundo em que viviam. Sua concepção de Ser incluía os rios, as montanhas, as estrelas, os animais e o mundo em que habitavam, que, por sua vez, os habitava – era parte de suas consciências. É uma noção complexa para nós, hoje, na era da selfie na era das tecnologias do “eu”.

Avanços tecnológicos habitam o conceito abrangente de progresso, palavra ambígua que tanto pode provocar entusiasmo quanto arrependimento. Às vezes, ambos, na medida em que a marcha do progresso tem sido, frequentemente, retratada como inexorável e inevitável. A descrição de Dickens das primeiras locomotivas a vapor que começaram a cruzar o interior da Inglaterra serviria muito bem como metáfora para a ambição desenfreada que se manifesta como progresso: “A força que se impôs sobre seu caminho de ferro – o seu próprio – desafando todos os trajetos e estradas, perfurando o coração de cada obstáculo e arrastando atrás de si criaturas vivas, de todas as classes, idades e tipos era um sinal do monstro triunfante, Morte”. No entanto, por mais difamados que a tecnologia e o progresso que ela desencadeia tenham sido, é justo enxergá-los apenas através do prisma da destruição? Ou trata-se de um reflexo Seriam talvez instrumentos, como o espelho, no qual nossa própria essência é refletida, para o bem ou para o mal?

Foi apenas nos anos 1500s que os espelhos se tornaram mais acessíveis, graças à descoberta das técnicas de revestimento do vidro (com uma mistura de estanho e mercúrio). Embora houvesse muitos críticos desses espelhos prontamente disponíveis, a verdade é que os seres humanos foram confrontados com suas próprias imagens, consigo mesmos, como nunca antes. Reflexos do eu se expandiram para reflexos de perspectivas Realidade e percepção colidiram, tornando-se intrínsecas a um diálogo exploratório sobre o eu. A expressão “fumaça e espelhos”, um aceno à inventividade tecnológica dos shows de mágica de outrora, é um aceno à manipulação da realidade e conduz a toda sorte de linhas de investigação algumas até poéticas criadas por artistas e engenheiros: eles criam ilusões que, todavia, transmitem… verdades.

A magia da inovação é baseada em três pilares: tecnologia, psicologia e narrativa. O fardo de criar uma ilusão verdadeira cabe a seus criadores e à tecnologia que eles devem dominar… e sempre fazer avançar. Essa aceleração tecnológica e criativa está acontecendo hoje, com a Realidade Aumentada (AR), a Realidade Estendida (XR) e as tecnologias imersivas. A demanda por mão de obra especializada para desenvolver essas tecnologias imersivas cresceu, em 2019, à incrível taxa de 1400%. Da mesma forma que os espelhos de vidro inundaram os mercados europeus durante a Renascença, as tecnologias imersivas estão começando a se tornar mais acessíveis. Já podemos nos maravilhar diante da nova consciência que surgirá como resultado disso.

A tecnologia levou à busca coletiva do mapeamento de um novo humanoide: a Inteligência Artificial reproduz a mente humana, porém com habilidades mais rápidas e eficientes para a resolução de problemas. A computação gráfica é capaz de quebrar as barreiras do “vale da estranheza”, e a comunicação sem fo, tanto síncrona quanto assíncrona, conecta as pessoas, que, por sua vez, estão conectadas a servidores em todo o mundo por meio de seus aparelhos. A rapidez com que estamos digitalizando nosso mundo, até o nível microscópico, culminará, sem dúvida, na criação de novos mundos, muito além do que podemos imaginar agora. Em vez de encontrar nossa própria imagem atrás do vidro de um espelho, seremos capazes de ver qualquer cor, qualquer forma, em qualquer lugar. Perceberemos mais do que nós mesmos… e talvez nos imaginemos para além dos limites de nossas restrições físicas O universo imersivo opera em uma escala diferente de espaço e tempo, e o tempo, como compreendemos hoje, será diferente em um futuro próximo. Conforme nos tornamos mais e mais interconectados, por meio da tecnologia, haverá muitos tempos possíveis em um espaço finito.

Devemos nos fazer a seguinte pergunta: Quem terá acesso a esses avanços?

O risco de não considerar questões como essa é que esses avanços tecnológicos podem fragmentar ainda mais nosso mundo. Podemos argumentar que, atualmente, chegamos a uma espécie de encruzilhada em que devemos decidir como essas ferramentas serão implementadas e com que propósito. É nossa responsabilidade fazer com que as novas tecnologias, à medida que se tornam cada vez mais enredadas não apenas em nossas vidas, mas também em nossos corpos, tornem-se parte de uma narrativa mais humanizadora. Agora, enquanto lutamos contra uma pandemia mundial e testemunhamos instabilidades em tantas sociedades no mundo, vivemos um momento único para avaliar as virtudes e falhas de nossas tecnologias e nos engajar no trabalho de exame de consciência que exige mais educação e democratização de nossas tecnologias.

É incrível pensar no impacto e nas repercussões, sociais e econômicas, das tecnologias, para além da Internet, da TV e mesmo do rádio. Conforme novos paradigmas surgem, fica evidente que a Realidade Virtual (VR) e a Realidade Estendida (XR) estão abrindo caminhos inéditos. A VR, por exemplo, tem um papel muito mais importante que o mero entretenimento; ela pode ajudar cientistas a criar modelos, contribuindo para avanços médicos, e simular ambientes que engenheiros desejam acessar. É por causa dessa tecnologia que equipes de criação são capazes de colaborar remotamente, criar novos universos e expandir as formas pelas quais as narrativas são desenvolvidas em uma experiência inteiramente imersiva. A VR torna o fantasioso, o que já pareceu instável e impossível uma realidade. A imagem da logo do VFXRio é prova disso. Quando o teleférico do Pão de Açúcar estava sendo erguido, desafando alturas vertiginosas muitos espectadores observavam sem acreditar que tal façanha pudesse ser realizada. Hoje, o bondinho – um testemunho da desenvoltura, da criatividade e da visão de seus engenheiros e construtores – é uma das imagens mais icônicas do Rio de Janeiro, intrínseca à identidade da cidade, valorizando sua personalidade e seu espírito. Vamos garantir que a tecnologia evolua dessa maneira: como um reflexo de todo o bem que possuímos e a que aspiramos.

 

Matteo Moriconi
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Presidente da Associação Brasileira
de Tecnologia Visual

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